
VALENÇA DO PIAUÍ — A Roda de São Gonçalo, legítima e expressiva manifestação da cultura popular, não tem hora marcada pelo calendário comercial: ela se apresenta no momento exato em que a fé chama e o coração transborda gratidão. Em Valença do Piauí, essa tradição secular ganha vida e força na residência de Dona Maria Hildete, localizada no tradicional Bairro Lavanderia, onde ela atua como guardiã de um dos patrimônios imateriais mais preciosos da região.
Para Dona Hildete, a realização da Roda vai além da celebração folclórica. Trata-se de um ato solene de promessa, reencontro e devoção. O rito é realizado especialmente em sinal de gratidão pelo retorno dos filhos que residem no Sudeste do país e voltam ao lar para desfrutar de suas férias anuais. A cada reencontro familiar, a matriarca reúne parentes, amigos e vizinhos para erguer louvores e agradecer a Deus por meio da dança sagrada de São Gonçalo.
A força da tradição atrai um público diversificado. Além da comunidade local e de familiares, o evento reúne visitantes de municípios vizinhos, como Lagoa do Sítio, e de toda a microrregião do Alto Sambito. Enquanto alguns se somam aos passos cadenciados da dança e ao ritmo dos tocadores, outros acompanham atentos, emocionando-se com a beleza da manifestação religiosa.
No centro da celebração, o ritual preserva sua estrutura ancestral. Os fiéis e dançarinos revezam-se na Roda ao som de instrumentos tradicionais — como a sanfona —, acompanhados pelo som característico do percutir do "caco de cuia", elemento marcante que resgata a sonoridade de outrora. A coreografia em "trancilim", conduzida com precisão pelos puxadores e seguida pelas dançarinas, leva a apresentação ao seu ápice. Paralelamente, em momento de profunda penitência, pagadores de promessas permanecem de joelhos ao pé do altar.
A celebração se encerra com a partilha comunitária. Aos presentes, é oferecido o tradicional café com bolo, iguaria que atravessa gerações e fortalece os laços de convivência no sertão. O cardápio afetivo inclui quitutes preparados em forno a lenha, como o clássico bolo de goma feito com ovos de galinha caipira, acompanhado por café fresco e chás aromatizados com diversas especiarias.
Neste dia 26 de outubro, Dona Maria Hildete reafirma seu protagonismo como símbolo vivo e guardiã da cultura popular valenciana. Mais do que festeira, ela permanece como a grande responsável por manter acesa a chama da Roda de São Gonçalo — reafirmando-a como a expressão cultural e religiosa mais autêntica e emocionante de Valença do Piauí.
Texto original e pesquisa: Prof. Historiador Antônio José Mambenga
Edição e redação: Redação Valença Online
Fotos: Reprodução / Crédito do Autor








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