Com informação do portalv1. No dia 20 de novembro, a sociedade brasileira celebra o Dia da Consciência Negra, uma data dedicada à reflexão, ao reconhecimento e à valorização da contribuição histórica, cultural e social do povo negro no Brasil. O momento também reforça a luta contra o racismo, a desigualdade e todas as formas de discriminação ainda presentes no país.
Para marcar a data, o Portal V1 apresenta a trajetória do líder comunitário Pedro José da Costa, conhecido como Pedro Feliciano, de 75 anos, casado, pai de três filhas e avô de cinco netos. Morador e representante da comunidade quilombola Tranqueira, ele compartilha sua história, as raízes do território, os desafios enfrentados e os sonhos da comunidade.

As origens da comunidade Quilombola Tranqueira
Seu Pedro relembra como tudo começou: “Sou Pedro Feliciano, nascido e criado na Tranqueira […]. Ela surgiu assim: eu tinha meu avô (Manoel Soares da Silva, mais conhecido como Manoel da Fé) que saiu de uma comunidade que era mandado por capitão e ele tomou uma decisão e veio morar na comunidade Tranqueira […], o primeiro morador desta comunidade. Então, ele foi quem criou essa comunidade Tranqueira, e eu, como neto, fiquei usando sempre os costumes que meu avô praticou na comunidade”, contou.
Ele explica que, na época, viviam pagando renda, sem direitos e passando por dificuldades. A partir disso, surgiu a necessidade de organização. “Criar uma associação e dessa associação, nós criamos uma fundação, porque é o momento que eu assentei com a comunidade para nós discutir o rumo que nós pudia pegar, alcançar um pouco da igualdade”, explicou.

Mobilização e fortalecimento da comunidade
Com o engajamento de moradores e apoiadores, a mobilização deu frutos. “Tivemos muitas ajudas para a instalação e a mobilização da entidade, e que hoje vivemos aqui como essa entidade e está dando certo. Então, era assim que ela foi fundada, através das raízes que a gente retratou por ele ser um patriarca que viveu sempre do que fazia, quando ele veio da terra do capitão, chegou aqui, ele foi sobreviver da previdência divina e do que ele fazia. Então nós, eu como neto, tive a curiosidade de fazer essa mobilização que está dando certo até hoje”, disse.
Cultura viva: tradições mantidas pela comunidade
Entre as tradições culturais da comunidade, seu Pedro destaca práticas que resistem há gerações. “Nós temos o Festejo de São João Batista, aqui nós praticamos o São Gonçalo, o Reisado, o Manuê e muitas tradições na área da cultura familiar.”
Essas manifestações são valorizadas e preservadas. “Os costumes, são esses: a gente vive do artesanato, na cultura do que a gente faz, o próprio São Gonçalo, o próprio Reisado, o Manoê, Festejo de São João Batista, são essas atividades que são sempre cultivadas, executadas, e vem sempre dando a continuidade, estamos com ela viva, ativa, sempre.”

Cultura e renda caminhando juntas
Hoje, além de manter viva a tradição, a comunidade também gera renda por meio dela. “De primeiro as coisas a gente fazia só pra gente, hoje tudo que você faz gera renda e gera renda é uma coisa que a gente tem por obrigação cultivar, porque em cima da renda é que vivemos e tudo que fazemos tem o valor”, afirmou.
Desigualdade e resistência: desafios que persistem
Mesmo com avanços, o líder comunitário afirma que o preconceito ainda é presente. “Ainda encontramos muita resistência, temos muitas necessidades de ser atendidos na área da saúde, educação, os programas sociais ainda tem muita resistência sobre nós, então, continuam com muita resistência, é um dos pontos que nós lutamos pela saúde, educação que no quilombo não tem e que é um dos sonhos, sonho não, um dos nossos objetivos.”
Conquistas que transformam vidas
Apesar dos obstáculos, seu Pedro celebra vitórias importantes alcançadas pela comunidade. “Através da nossa organização, nós tivemos a oportunidade de ter um ponto de cultura para fazer os eventos, nós ganhamos a energia através do nosso projeto, nós tivemos um sistema habitacional de quarenta casas. Enfim, estamos em posse da terra, pleiteando a posse da terra, quer dizer que tudo isso foi o resultado que já conseguimos, que a gente teve através da nossa luta. Então, vivemos várias conquistas, como CNPJ da nossa entidade, a gente já aproxima das agências bancárias com mais facilidade, para trabalhar políticas públicas. Então, são tudo resultados da nossa luta”, ressaltou.

Planos para o futuro e a espera pela posse da terra
Para seu Pedro, os novos projetos dependem da oficialização da posse da terra. “O projeto vai seguir quando nós tivermos a posse da terra, porque é daí que a gente vai ter acesso à linha de crédito maior que possa estar dando a sustentabilidade geral para a gente, até aí, a gente ainda não tem esse direito, num crédito grande que possa ser o que nós necessitamos.”
O significado do Dia da Consciência Negra
Perguntado sobre a data, ele reflete: “A consciência negra para mim é um dia e uma luta de grande importância, para mim ser negro tem muita importância e digo, digo para o negro que tenha consciência desse dia tão maravilhoso que é internacional, que é um dia que vem dando o direito e o poder que a gente possa lutar pela igualdade, assim como todos […]. Ter consciência do que decidir, que é tão especial para nós aprender, buscar o direito humano.”
Sonhos e necessidades da comunidade Tranqueira
Seu Pedro lista os principais desejos da comunidade para os próximos anos. “Os próximos sonhos é, com certeza, lutar por aquilo que ainda não temos, como um posto de saúde, um colégio para os quilombolas, um transporte de qualidade que não temos, a própria posse da terra, como vou repetir muitas vezes, e para a gente poder estar trabalhando com o saneamento básico, melhoria para a comunidade como calçamento, como habitação, mais habitação, enfim, segurança também.”
O legado do pai e a inspiração familiar
Ele guarda com carinho o exemplo deixado pelo pai. “Feliciano José da Costa foi um grande pai, exemplo de pai, meu pai, ele foi uma pessoa que teve nove filhos, meu pai foi uma pessoa que ensinou nós a trabalhar na agricultura, procurou dar educação, meu pai, que tinha uma profissão de dom, meu pai não era formado, mas que ele fez muito benefício ao pessoal que procuravam ele na parte de benvição, ele benzia, meu pai na comunidade era um grande conselheiro, todo mundo parava para ouvir meu pai.”
Seu Pedro acredita que segue os passos do pai. “Hoje eu sou conhecido na comunidade, substituindo o meu pai em termos de ser conselheiro e querer o bem de todo mundo, sempre dou meus conselhos, amigo, retratando o meu pai, meu pai foi um exemplo para essa comunidade e mesmo as outras comunidades”, destacou.

Antônio Feliciano: patrimônio vivo e referência cultural
Pedro também exalta a importância do irmão:
“Meu grande amigo, irmão, companheiro, Antônio Feliciano, um patrimônio vivo da comunidade […] ele é benzedor de criança, ele é benzedor de barriga de animal […] ele é uma pessoa que sabe, não é um Pai de Santo, mas que dá muito exemplo sobre a bendição.”
Ele completa dizendo que o irmão é um fazedor de cultura nato. “Antônio Feliciano, posto por mim em cada atividade da cultura que eu fiz, botei na mão de quem sabia fazer […] Antônio Feliciano é um grande baluarte na cultura, o reisado, ele entende muito bem, é ele o mestre. Por conta disso, e por reconhecimento dos professores, foi que ele ganhou o título de patrimônio vivo dos quilombolas da tranqueira.”

Mensagem final para o Dia da Consciência Negra
Seu Pedro deixa um recado especial: “Para todos negros do Piauí, do Brasil e do mundo, que todos tenham a consciência desse dia […] que todos preste atenção e todo respeito a esse dia que pertence ao negro, Dia Internacional do Negro, é essa minha mensagem de coração.”














